"O poema tinha sido uma das minhas paixões nos tempos de universidade. Nós estávamos em Lagoa Santa. Pegamos o carro e descemos para Belo Horizonte, percorrendo livrarias, atrás de Cobra Norato. Achamos e eu passei a estudar o poema.

Visitamos o Raul Bopp no Rio de Janeiro. Ele tinha 81 anos e nos recebeu com uma satisfação imensa. Ele pensava que não era mais lembrado pelas novas gerações, e ficou muito surpreso. E fez uma gentileza incrível: descreveu os 21 versos que deram origem aos 33 poemas que constituem Cobra Norato. Aí nós começamos a trabalhar. Dessa vez com um convênio que assinamos com a Universidade, em 1976, para trabalharmos normalmente durante a semana, ao invés de apenas nos sábados, domingos e feriados. Ocupamos um prédio, onde ficamos por 22 anos, e lá começamos a trabalhar em Cobra Norato. Neste prédio fazíamos projetos, realizávamos os bonecos, os estudos teóricos, etc....

A equipe era eu, Teresa Veloso, Madu, Hilda Borém e Juliane Junqueira. Eventualmente chamávamos o Felício Alves para participar. Assim fomos fazendo Cobra Norato, que levou dois anos para ser concluído: desde os primeiros estudos, os seis meses intensivos de oficina, onde ninguém ganhava um tostão. O material era todo financiado por nós mesmos. Ninguém, nem a Universidade, deu dez mil réis para o Giramundo fazer Cobra Norato. Não sabíamos o que aconteceria com aquilo que estávamos imaginando, pois não tínhamos onde ensaiar.

A primeira apresentação contou com sessenta bonecos. Estreou no Festival de Teatro de Bonecos, em Ouro Preto. Depois fomos para Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, e foi um sucesso estrondoso. No Rio tínhamos que fazer sessão extra, à meia-noite. Lotava, lotava e o povo esmurrava a porta para a próxima sessão.

Cobra Norato foi tamanho sucesso de crítica que o Giramundo recebeu o Prêmio Moliére. Foi a primeira vez que um espetáculo dedicado ao Teatro de Bonecos recebeu o prêmio.

Cobra Norato foi uma mudança fundamental na visão do Giramundo. Primeiro, porque nós trabalhamos a forma nacional. Não foi um boneco qualquer. Foi um boneco de origem absolutamente brasileira. Segundo, porque a música foi tratada junto com o espetáculo, numa afinidade de alma perfeita com Lindembergue Cardoso, que utilizou o mesmo processo: nós usamos formas indígenas, formas simples de esculturas, e o Lindembergue começou a usar sons primários, e à medida que se desenrolava a peça, ele foi criando harmonias mais complexas. Foi um trabalho entrosado e visceral entre todos os que trabalharam. Tudo saiu com uma perfeição que não esperávamos. Onde a gente ia se falava do absoluto profissionalismo, da manipulação perfeita. Não havia um ruído, uma luz errada, nada caindo em cena. Todos nós trabalhávamos em êxtase, em transe. Antes de iniciar o espetáculo, era um silêncio, uma concentração absoluta. Eu fiquei muitas vezes comovido em ver o marionetista igual a um guerrilheiro, esperando o inimigo passar atrás de uma árvore. O boneco na mão, absolutamente imóvel, silencioso, ainda não era a hora, faltava muito tempo para entrar em cena, mas ele já estava disposto a entrar. Foi uma revolução interior da gente. Nós passamos a entender o teatro de bonecos, que ele poderia alcançar níveis de expressão que nós podíamos imaginar mas que ainda não tínhamos sentido, e estávamos sentindo.

Cobra Norato fez uma grande carreira. É impressionante notar a brasilidade do ritmo do espetáculo, que é absolutamente linear. Ele não tem aquele crescimento dramático tradicional do teatro. A música apropriada para o tema, a forma e as cores escolhidas, a iluminação, o aspecto ritualístico... começa com uma vela, uma mão fazendo feitiço, essa parte ritual do espetáculo é muito importante. E, acima de tudo, o poema, que é de uma beleza extraordinária, é uma invenção, antes do Guimarães Rosa. A introdução de novos termos, termos africanos, termos indígenas, lendas da Amazônia. Então, Cobra Norato é uma obra complexa com várias leituras possíveis, e todas elas remetem a outro prisma. Ele é prismático, irradia para todas as direções."

Álvaro Apocalypse