| Giz |
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| Giz
é uma coleção de cenas independentes e articuladas
pela idéia de abandono e fragilidade. Todo o espetáculo é
branco, com bonecos dependurados em cabides como roupas velhas e sem uso.
O espetáculo é um dos poucos dentre o repertório do
Giramundo, no qual o uso da palavra é restrito ou secundário. O processo de montagem de Giz seguiu caminho inverso aquele normalmente utilizado pelo Giramundo: primeiro foram criados os bonecos, e depois, o roteiro. Os bonecos, em sua maioria de grandes proporções, foram modelados em espuma e recobertos por tecido. Os mecanismos internos foram montados de modo frouxo, permitando uma movimentação solta. Giz foi apresentado no Festival Mundial de Teatro de Marionetes, de Charleville-Meziérès, em 1989. |
| Álvaro Apocalypse - depoimento |
| Eu
fui para Poços de Caldas com a mão no bolso. Não tinha
nada, absolutamente nada. E lá eu comecei a desenhar. E desenhava
e discutia e as cenas foram nascendo do desenho. Não tinha texto.
Até poucos dias antes de espetáculo não tinha texto,
não tinha nada. Aí começamos a ensaiar com o Eduardo
Álvares e o Ernest Vidmer. Aí experimentamos muito. Improvisação
em cima de improvisação. Armamos o roteiro, montamos o espetáculo
e estreamos lá. O Giz foi uma experiência muito interessante, porque era branco sobre preto: os bonecos são brancos, os manipuladores são brancos, todos os objetos de cena eram brancos. E não havia uma história. O roteiro é composto de fatos isolados, e nós fizemos o “anti-teatro” de bonecos. Em vez dos bonecos serem pequenos, eles eram maiores que os manipuladores, em vez deles serem manipulados, eles eram pendurados nos cabides, como se você manipulasse sua camisa pendurada num cabide. Nós trabalhamos também com o abandono, o amor entre os feios. Exploramos vários temas, e centramos o roteiro numa família típica. Que vai morrendo e renascendo aos poucos. Se repetindo, gente morrendo e nascendo gente. O espetáculo terminava com uma crítica aos governos, com um político inescrupuloso imenso, de dois metros de altura e um e sessenta de largura, que andava montado em cima de dois maltrapilhos. Da cabeça dele saíam personagens que gritavam: “Muito bem! Muito bem!”. Os “puxa-sacos”. Havia também os anjinhos do “sim”, que faziam contraponto ao órgão do “não”. O órgão é como se fosse uma pessoa adulta, e os anjinhos são crianças. Então era um jogo: “Não, não, não...sim, sim, sim...” Era a birra do menino provocando o velho. Foi uma inovação cenógráfica de importância. O fato de ser tudo branco, dos bonecos serem dependurados, dos manipuladores atravessarem a cena. Foi a primeira peça do grupo onde os manipuladores ficaram completamente visíveis. Foi também a primeira vez que o Giramundo trabalhou com “bonecos moles”, com base de espuma e revestidos de tecido. Nós inovamos também na estrutura: os bonecos não são rígidos, pois usamos nylon para amarrar as peças e elas ficaram bem soltas, o que gerava outro padrão de movimento. O Giz foi uma grande experiência. Entramos no Circuito Mambembão, fizemos sucesso no Rio de Janeiro e estouramos mesmo em São Paulo, onde ficamos por duas semanas. A crítica de lá apoiou a inovação. O espetáculo também foi para o Festival de Charleville Mézières, mas num teatro que não era muito bom. Era o Pavilhão da Espanha. Nós apresentamos lá e tivemos o reconhecimento que o espetáculo merecia. |