O Guarani
 
 
Considerada a principal ópera brasileira, O Guarani estreou em 1870, no Teatro Scala de Milão. Seu autor, Carlos Gomes, se baseou no romance homônimo de José de Alencar, escrito em 1857, que tratava do amor impossível entre Ceci, filha de um colonizador português, e Peri, chefe guarani da tribo dos aimorés.

O Giramundo produziu duas versões da ópera O Guarani.

A primeira, em 1986, com forte conteúdo político, criticava o choque cultural criador das Américas. A segunda versão, de 1996, é fiel à ópera, concentrando-se na música e no romance entre Peri e Ceci. A coleção de O Guarani, uma das maiores do Giramundo, reúne bonecos de balcão, marionetes a fio e bonecos a tringle.
 
Álvaro Apocalypse - depoimento

A primeira versão de O Guarani foi produzida no Festival de Inverno de São João Del Rey. Aí aconteceu uma tragédia. Nós estávamos esperando o Lindembergue para fazer o tratamento da música original - que dura quatro horas. Intencionávamos fazer um espetáculo especulativo. Queríamos colocar em questão a ópera. Decididamente não íamos fazer uma transcrição para bonecos. Seria até ridículo. Gostaríamos de questionar a ópera, a História, o teatro. Mas o Lindembergue foi proibido de vir.

Então, nos indicaram o Raul do Valle. Competentíssimo compositor da Universidade de Campinas, mas que não tinha tanta afinidade com a gente. E nós tínhamos aquela molecagem do Lindembergue. Nós queríamos questionar o tema. E não foi possível, em termos musicais.

A estréia foi acompanhada de tragédia, porque logo na Protofonia - normalmente a Protofonia é tocada com a cortina fechada mas nós já começamos o espetáculo ali - logo no primeiro movimento... o cenário desarma e o o urdimento do teatro desaba! Veio peça, pano, corda, tudo em cima dos atores, dos bonecos, com o público na frente assistindo tudo. Em São João Del Rey. Aí carregaram tudo aquilo, levaram para um lado, o pessoal ficou nervosíssimo... e o espetáculo continuou. E tinha a participação ao vivo da Odete Ernest. A moça que cantava na cena da seresta também era ao vivo. Foi um espetáculo de muita tensão. Mas todo mundo viu o esforço e a beleza que seria o Guarani no futuro. Mas o Raul não entendeu o que eu queria. Eu queria transformar a pequena canção da Ceci em música para cantar em festa de aniversário. Eu queria transformar aquilo numa coisa singela. Uma mocinha no violão. Colocaram uma soprano ótima de São João Del Rey, e ele fez uma música operística, transpondo simplesmente do italiano para o português. E perdeu todo o sentido. O sentido era reduzir a ópera até chegar ao violão e a voz. Tirar toda a parte orquestral e ficar uma coisa mais simples.

O Guarani era crítico porque questionava. Tinha um personagem que saía da platéia e invadia o palco. Era o “último Guatemala”, um jornalista meio embriagado que questionava o espetáculo, questionava tudo, e terminava melancolicamente balançando uma correntinha de ouro e falando que era a única coisa que os portugueses tinham deixado no Brasil.

Esse espetáculo foi para a Venezuela, onde comoveu muita gente, havia discurso e emoção na platéia. Depois, em 1988, foi para o México.

O Guarani trazia muita tensão. O espetáculo era muito rigoroso em termos de marcação de cena, luz e trocas de cenário. E as próprias cenas eram tensas, No “despojamento”, por exemplo, os marionetistas pegavam o índio
e tiravam tudo o que ele tinha: o cocar, os colares, as pulseiras, e colocavam nele umas roupinhas, um shortinho, uma sandalinha de borracha e um gorrinho na cabeça. E o final também era muito tenso, com solo de vozes e sinos, que era o “batismo”.

Na segunda versão, de 1996, o espetáculo esvaziou. Tudo que tinha de combativo da primeira versão, acabou. A política acabou. Eu senti que as reivindicações da primeira montagem estavam defasadas. Então tiramos tudo que tinha de combativo e fizemos do Guarani uma história de amor. E, na verdade, é uma história de amor. E na primeira versão nós criticamos o teatro. A segunda versão é a aceitação do Guarani tal qual ele é. Nós aceitamos a teatralidade, Carlos Gomes, José de Alencar... E retiramos as batalhas, as partes mais dramáticas, retiramos o boneco Guatemala - o jornalista da primeira versão. Fizemos as pazes com todos esses aspectos.