| Le Journal |
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| Espetáculo
criado para participar do Festival Musique en Mouvement, em Charleville-Mézières
(1992). Para composição da música, foi convidado o
grupo O Grivo que, inspirado em John Cage, criou trilha sonora
baseada no improviso e na sonoridade não convencional de objetos
e instrumentos com afinação alterada. Os personagens transitam em mesas deslizantes onde há tudo o que é necessário para sua performance: aparelhagem de som, iluminação e até o texto escrito. Este tipo de boneco foi chamado pelo Giramundo de “boneco de bureau”. O "esqueleto" do marionete, normalmente velado pelo acabamento, figurino e pintura, desta vez, é propositalmente deixado visível, compondo estruturas cubistas. |
| Álvaro Apocalypse - depoimento |
| Em
Charleville, na França, organizaram o encontro “Musique en
Mouvement”. Era teatro de bonecos unido à música. E
exigiam música ao vivo, como em todo festival. O Giramundo levou
música ao vivo. O resto levou música mecânica ou um
violinista só, um pianista... Nós levamos O Grivo:
três músicos. Quando eu voltei da França, já haviam inscrito, à minha revelia, O Diário de um Tímido Forasteiro. E o pessoal da organização do festival, da escola de marionetes de Charleville, intimou a nossa participação. A princípio, a Orquestra Municipal de Charleville faria O Guarani. Mas era uma pequena orquestra e eles disseram que não teriam capacidade para tal. Bom, no catálogo publicaram as fotos do O Diário de Tímido Forasteiro, que é a primeira versão e não tem absolutamente nada a ver com a segunda, é um outro texto, outra idéia. Percebi que eles não entenderiam O Diário de um Tímido Forasteiro, nós atacávamos os Centros Culturais Brasileiros através de ironias incríveis, tinha um discurso que a Madu fazia agradecendo a participação dos artistas do Centro Cultural, tinha Édipo, tinha o Cérbero - um cachorro com três cabeças, sendo que cada cabeça tinha uma idéia diferente e que era um crítico de arte, tinha uma rainha imensa, devoradora, tinha um pintor que dava só uns traços na tela e desmaiava porque gastava muita energia, seu traço era de tal maneira enérgico, que ele dava uma pincelada e desmaiava e aí o quadro ia diretamente para o museu, para a admiração pública, era uma gozação. Mas a França não iria entender o Diário. Resolvi então adaptá-lo para o gosto internacional. Como o Eduardo Álvares não podia nos atender, nós chamamos O Grivo. Fizemos uma adaptação com pequenas modificações e a participação do Grivo. O roteiro do espetáculo foi escrito juntamente com o roteiro da música. E o espetáculo passou a se chamar Le Journal. Por haver uma distância grande entre o que o Giramundo era e queria e o que o Grivo produzia, houve um certo desencontro de intenções, mas foi uma experiência válida. Nós levamos o Le Journal para o festival “Musique en Mouvement”. Apresentamos em Charleville, Reims e Arras. Tivemos invenções de manipulação muito interessantes, como o “barco”, o “Édipo” na bóia, que é uma inovação, o boneco de teclas que você toca, segundo uma partitura, que é muito interessante - é um boneco que você pode colocar na mesa e tocá-lo, como um instrumento de teclado. Foi uma experiência interessante e, outra coisa, nós colocamos os músicos no palco. Colocamos os três músicos disseminados pela cena, e os bonecos, os manipuladores passavam por perto, na frente deles. Foi um espetáculo de vanguarda. Limpo, bonito e um pouco incompreensível, porque era estranho. Uma aluna minha falou que não entendeu nada. “Nada?”, perguntei. “Bem, uma pessoa pegou um livro de outra, leu uma frase, caiu num transe sobre partes do seu passado...” As pessoas achavam tão hermético que parecia que não entendiam, mas na verdade, não é hermético. Dá para você perceber perfeitamente uma estrutura. Le Journal era uma grande crítica à psicanálise e ao mundo de Freud. Chegamos a colocá-lo, submerso, vivendo dentro de um peixe. Ao lado dele, tinha um vasinho comprido, desses que se coloca em altar na igreja. A adoração de Freud e a banalidade que fizemos da participação da Jocasta e a fúria de Laio querendo encontrar o Édipo, não sabendo que ele seria morto. E a Jocasta falando: “Édipo, cuidado! Não vá brigar com ninguém na estrada... ”Ele encontra o pai e o mata na estrada. Foi uma gozeira sobre as relações entre Édipo, Jocasta e Laio. Também foi a reação que o Giramundo estava tentando fazer contra o Teatro de Bonecos convencional, que contém o “adorador de bonecos” que é o manipulador, que fica babando por causa do boneco em cena. Nós fizemos o contrário, nós torturamos os bonecos. E, para terminar, tinha uma personagem muito querida, que era a “Madrinha”. Ela era completamente dominada pelos comprimidos. Estava neurótica. Quando passava o efeito do comprimido, ela se irritava muito. Chega uma hora que ela perde totalmente a paciência com o afilhado e solicita um canhão e que ele seja alvejado. Termina o espetáculo com um tiro de canhão, o personagem morre com um tiro de canhão. |