| As Relações Naturais |
![]() |
| Com texto original do controverso escritor gaúcho Qorpo Santo (1829-1883), o espetáculo apresenta uma crítica feroz à família, transformando um lar num bordel, onde imperam relações perversas e incestuosas. A montagem do Giramundo cria um paralelo surreal entre a imperfeição moral e a deformação física dos personagens. |
| Álvaro Apocalypse - depoimento |
| Eu
estava atrás de alguma coisa que nos tirasse daquela rotina que o
Giramundo repetia. O grupo já dominava uma técnica, o tringle,
e já tinha explorado essa técnica, mas precisava de uma experiência
mais profunda. Aí, passando pela Rua da Bahia, eu vi um livro, Teatro
Completo de Qorpo Santo, publicado pela Funarte. Imediatamente começamos
a produção e desta vez, baseado num tema que o Giramundo não
havia trabalhado: o Teatro do Absurdo. O Qorpo Santo, na sua genialidade fatídica, louca, foi considerado um desequilibrado. Era uma questão aberta, saber se ele era louco ou não. Mas ele escreveu um texto que jamais seria escrito em 1860, e nesse texto ele não diz quem fala as frases, de forma que você pode atribuir aquela frase a quem você quiser. É um exercício muito bom, eu levei dias para armar essas frases soltas. As Relações Naturais fez o Giramundo lidar com outras emoções, outras formas e outra técnica. Além do tringle, havia ainda teatro de sombra, teatro com “mão-fantasma”, foi uma experiência que teve sua importância. Recebeu muitos comentários favoráveis da crítica, mas todo mundo reconhecia que era um teatro grotesco. E nós trabalhamos um tema nesse espetáculo que até hoje nos seduz muito: a deformação moral correspondendo a uma deformação formal, plástica. É uma coisa que evidentemente a gente não leva a sério, mas é um tema a ser trabalhado. A música foi do Lindembergue Cardoso, que fez questão de trabalhar dentro da oficina. “Mas, Lindembergue, tem muito barulho!“ “Não, não, eu quero trabalhar na oficina”. E nós conseguimos levar o piano para a oficina, no meio das máquinas de serra, de lixadeira, aquela barulheira infernal, e o Lindembergue na maior calma possível, compondo e escrevendo. Tomando café, fumando e escrevendo com o ar mais cândido do mundo, a fisionomia absolutamente descansada. De vez em quando ele pedia: “Traz fulano aí para eu ver.” A gente pegava, andava com o boneco, fazia algum gesto. Ele anotava e fazia a música no piano. O Lindembergue curtia tudo, e adorava ficar naquela bagunça da oficina. Ele andava para cá e para lá, sentava e tocava, depois parava de tocar e imitava Carmem Miranda e cantava, colocava uma ópera no meio, voltava para o trabalho, estava perfeitamente entrosado no espírito do Giramundo. E saiu então um trabalho excepcional. Eu não consigo ler o texto sem ver e ouvir o movimento e o ritmo do espetáculo e a música do Lindembergue, que era absolutamente adequada, também era deformada como exige-se esse desvario do Qorpo Santo. |
![]() |