Saci Pererê
 
 
O nome Saci Pererê, tem origem tupi-guarani, e se baseia na ave chamada matinta-pereira, ou matitaperê cuja cor escura e hábito de se postar numa perna só, foram associados à lenda de uma criança travessa, que assombrava fazendas, currais de gado e senzalas. A lenda, contada à luz do luar por escravos pretos-velhos e amas secas, correu o Brasil por meio dos tropeiros ganhando variações regionais.

Saci Pererê foi a terceira montagem do Giramundo (1973) e a primeira a abordar temas brasileiros. O espetáculo foi fortemente influenciado pela experiência dos integrantes do grupo no Festival Mundial de Charleville-Mezières de 1972, onde tomaram contato com variadas técnicas de manipulação e novas
possibilidades de encenação.
 
Álvaro Apocalypse - depoimento

Um dos maiores marionetistas do mundo, o Albrecht Roser, ficou sabendo que existia um grupo de Teatro de Bonecos em Belo Horizonte, e foi até a Escola de Belas Artes, onde dávamos aula. Ele também visitou nossa oficina em Lagoa Santa, e viu os nossos bonecos lá. Voltou encantado. Poucos meses depois, veio um convite para participarmos de uma criação coletiva em Charleville-Mézières, na França. Foi a primeira viagem do grupo. Levamos bonecos dentro das malas, misturados com as roupas. Integramos uma criação coletiva na qual tivemos uma participação decisiva. Havia gente de Israel, Japão, EUA, Inglaterra, Alemanha, mas eram todos muito jovens. Nós tínhamos pelo menos uma experiência em artes plásticas. Ficamos um mês na cidade, durante o Festival Internacional de marionetes. E nesse festival vimos uma exposição alemã que foi definitiva para o Giramundo, para nós valeu como um curso. Apresentava as estruturas dos bonecos, os bonecos sem roupa, como construir mãos, olhos, pés. Todos os que participaram desse festival disseram que foi o maior dos últimos anos. Nunca mais houve um como aquele. Trinta e três países e a presença impressionante dos países do Leste, Polônia, Bulgária, Checoslováquia, Bulgária e Rússia. Foi uma coisa extraordinária do ponto de vista de confecção, de música, de mise-en-scène. Na volta, aprimoramos muito a técnica com todo o conhecimento do festival e montamos o Saci Pererê. Eu e a Madu escrevemos o texto. Fizemos a descoberta de que a mitologia grega é o folclore grego. Resolvemos então trabalhar o nosso folclore, que foi o caso do Saci-Pererê.

A história é de um casal de fazendeirinhos felizes: Tinham uma vida boa, um burrinho, uma galinha. Tinham queijo de uma cabra e levavam os ovos e o queijo para vender na feira. Até que aparece o Saci exigindo coisas.
Eles fecham a casa e ele fica do lado de fora batendo. Então o Saci solta todos os bichos deles e eles ficam sem nada. Aparece então o Pedro Malasartes e fala: “Deixa comigo”. E o Pedro Malasartes consegue colocar o Saci dentro do vidro. Os bichos voltam e a história tem um final feliz. Depois o Pedro solta o Saci que vai embora. O Saci era uma peça ingênua mas com grande aceitação pela criançada e, desta vez, com uma técnica já apurada. Começamos a caprichar muito no acabamento e no gesto.